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24/04/2006 às 14:04 - Segundo Tempo combate injustiças sociais e ajuda crianças de favelas a superar problemas  

O dia foi inesquecível para 800 crianças carentes moradoras de Recanto das Emas e da Invasão Taubaté, ambas no Distrito federal. O clube da Associação dos Servidores do Tribunal de Contas da União (Astcu), que geralmente fecha suas portas às segundas-feiras para manutenção de equipamentos, estava impecável, pronto para receber os passageiros de 20 ônibus que estacionaram na manhã de hoje (24/4) no clube, cheio de crianças prontas para muita diversão.

Logo na chegada foi quase impossível controlar a turma. Gritos, sorrisos e muita euforia marcaram a visita das crianças e jovens contemplados na parceria com a ONG Obras de Promoção e Assistência a Infância e Adolescência (OPAI). A oportunidade era única para um público plural. A maioria jamais teve a oportunidade de estar presente num clube social e isso só pôde acontecer graças ao Programa Segundo Tempo, que cada vez mais solidifica uma ampla rede de solidariedade por meio de parcerias com ONGs, clubes sociais, entidades religiosas, órgãos de classe e com as três esferas do governo (federal, estadual e municipal).

No clube da Astcu, o campo de futebol, a quadra poliesportiva e os brinquedos do play ground ficaram em segundo plano. A manhã de sol quente fez com que os visitantes mirins não dispensassem a oportunidade de mergulhar, fazendo com que as duas piscinas fossem transformadas em formigueiros humanos. Para conter qualquer eventualidade e manter a segurança da garotada no local, a direção do clube da Astcu disponibilizou todos os seus salva-vidas, que se uniram aos de 20 monitores do Segundo Tempo numa força tarefa de acompanhar com muita atenção as crianças.

Durante um breve descanso numa espreguiçadeira, enrolado numa toalha, o jovem morador da quadra 803 do Recanto das Emas, Isaac Barros, 10 anos, olhava para o céu e, mesmo num momento de puro lazer, o pequenino mostrava que, apesar de ser criança, tinha o senso de responsabilidade de um adulto. “Em casa somos quatro irmãos e meus pais estão desempregados. Adoro futebol, as aulas de informática e o reforço escolar do Segundo Tempo estão me ajudando bastante na escola. Um dia serei um policial vou tirar meus pais dessa situação difícil”, revelou.

Os irmãos Ezequiel e Ismael Ribeiro não disfarçavam a alegria. Aos serem questionados se saberiam explicar o motivo do nome do local onde moram - a favela Taubaté nas proximidades da quadra 309 do Recanto das Emas - eles foram enfáticos. “Simples. É porque lá tem tábua até o teto”, disseram, às gargalhadas.

Apesar da sátira com a história do local onde moram, o semblante dos dois jovens mudou. O sorriso deu lugar ao ar de preocupação e de revolta ao lembrarem da violência urbana a qual são submetidos todos os dias e, graças ao Segundo Tempo estão tendo a oportunidade de uma infância mais digna. “Lá temos problemas de todo jeito. Faltam postos de saúde, esgoto, água encanada, segurança e a energia elétrica só existe porque os moradores improvisaram gambiarras”, contam, entristecidos.

Ezequiel tem 14 anos e está muito atrasado nos estudos. Ele cursa a 4ª série do ensino fundamental e conta que reprovou quatro anos consecutivos porque, assim que mudou para a favela, não existia sequer uma escola e ele precisava cuidar do irmão caçula para os pais irem trabalhar. O jovem agora está matriculado no Centro de Ensino Fundamental 510 do Recanto das Emas. Ele conta que o reforço escolar do Segundo Tempo tem ajudado bastante. “Nunca mais vou repetir de ano porque no Segundo Tempo tenho acompanhamento onde esclareço todas as minhas dúvidas”, afirmou o determinado Ezequiel.

Encantado com o clube, o estudante Ismael, 9 anos, com o olhar distante fixado no céu, falou sobre suas aspirações. O sorriso deu lugar a um ar de tristeza. A piscina fez com que ele recordasse um triste episódio que vivenciara recentemente. “Essa água toda da piscina me lembrou a chuva que caiu há 15 dias e acabou com meu caderno da escola. Ainda bem que o pessoal do Segundo Tempo me presenteou com um caderno novinho em folha, de dez matérias. Agora posso voltar a fazer minhas tarefas escolares”, contou, com os olhos lacrimejantes.

Ismael comemorou também outros presentes que ganhou: três lápis, uma tesoura, um apontador e um tubo de cola. Para ele, estudar é muito mais importante que brincar e, mesmo morando num lugar que não considera tão bom, a vida de sua família mudou para melhor. “A comida do Segundo Tempo é muito boa e os monitores são gente boa e querem ver todas as crianças pobres no caminho do bem”, afirmou.

A estudante Abigail Félix, 10 anos, sonha alto: quer seguir carreira de modelo. Órfã de pai, ela mora na favela Taubaté com o irmão Lucas, 7 anos, a mãe e o padrasto. Vaidosa como qualquer pré-adolescente, ela acredita no sucesso que fará nas passarelas. “Vou ser modelo, mas continuarei meus estudos e vou encerrar minha carreira profissional como uma delegada de polícia”, declarou, determinada, a jovem. “Até meu book de fotografia e uma agência de modelos já está sendo contatada pela tia Soraya, coordenadora do núcleo da quadra 309 onde pratico esportes”, revela, esperançosa, Bia, como carinhosamente é conhecida no Segundo Tempo.

Segundo Tempo - Para garantir um amanhã cheio de gente saudável, esperta e tolerante, o Ministério do Esporte criou o Segundo Tempo – porque o primeiro é na escola. O Segundo Tempo é o maior programa sócio-esportivo do mundo. Em todo o Brasil, mais de 1,4 milhões de crianças e adolescentes já foram beneficiados desde 2003 com a prática esportiva no período oposto ao que estão em aula – ou seja: quem estuda pela manhã tem a tarde preenchida pelas atividades do programa (e vice-versa), que incluem também reforço escolar e alimentar e atividades extracurriculares a cargo de cada núcleo do programa

Os materiais esportivos e uniformes usados pelo Segundo Tempo são produzidos por outro programa do Ministério do Esporte, o Pintando a Cidadania. O Segundo Tempo trabalha em conjunto com mais de 100 parceiros entre as três esferas do governo - federal, estadual e municipal -, ONGs, clubes sociais, entidades representativas de classe e diversas outras representações da sociedade. Hoje, já são mais de 2 mil núcleos do programa espalhados por cerca de 600 municípios em todo o país. O Segundo Tempo também emprega diretamente cerca de 11 mil pessoas. São profissionais e estagiários das áreas de Pedagogia e Educação Física envolvidos na organização e gestão dos núcleos.


Carla Belizária


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