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16/08/2005 às 23:01 - Segundo Tempo resgata identidade indígena no Mato Grosso do Sul  

Em busca de uma melhor educação para os seis filhos, Ambrósio Kalisini e Júlia Ida Góes abandonaram, há 14 anos, as aldeias onde nasceram - São João e Brejão - e fixaram residência na cidade de Bonito (MS). A mudança radical do casal de índios Kniknao e Terena tinha alvo certo: o sonho de um futuro melhor com educação e esporte para seus seis curumins. O sonho agora se concretiza com a chegada do Programa Segundo Tempo.

Os quatro filhos mais velhos do casal já concluíram os estudos e trabalham com mergulho e turismo. Os dois caçulas encontram no Programa Segundo Tempo oportunidades de resgatar a cultura indígena por meio do convívio social e esportivo com outras crianças da região. Elias Góes, 14 anos, cursa a 7ª sétima série e pratica canoagem em uma unidade da parceria com a Confederação Brasileira da modalidade (CBCa). “Meu povo usava a canoa como transporte e durante a pescaria. Descobri aqui no núcleo que isso tem tudo a ver comigo”, afirma Elias.

Antes de participar do Segundo Tempo, Elias andava com más companhias. As constantes brigas na rua com jovens de mesma idade eram dores de cabeça para a família. “Ele estava muito desobediente, calado e arisco - parecia que ia morrer de tanta tristeza. Com a chegada do Segundo Tempo, conseguiu bons amigos e agora é outra criança, de tão alegre que ficou”, comemora a mãe, Júlia.

No centro de Bonito, o pai de Elias e da irmã, Cristiane, Ambrórsio Kalisini – nome que no vocabulário kiniknao significa onça pequena -, construiu uma oca de quatro metros, num espaço cedido pela prefeitura. Além de moradia, são confeccionados e comercializados no local artefatos da cultura indígena para turistas: colares, brincos, luminárias e enfeites de parede. “Mas é justamente na baixa temporada que o salário que recebo trabalhando como monitora do Segundo Tempo chega em boa hora aqui em casa”, revela Cristiane Góes, 18 anos.

Cristiane estuda na 2ª série do segundo grau e, na escola, já tem experiência na área de alfabetização de indígenas. Para ela, é uma satisfação cuidar das 200 crianças do programa no núcleo da CBCa, já que a maioria é descendente dos Atikum, Guató, Ofoiê, Kadiwéu, Kamba, Kniknao e Terena, etnias predominantes na região do Mato Grosso do Sul. “A gente tem que olhar para frente e nunca esquecer nosso passado. O Segundo Tempo nos traz novos ensinamentos e ajuda a preservar nossa história”, revela a jovem.

O Parque Ecológico da Lagoa Formosa é o local onde pré-adolescentes como Bruna Simão Luna, 11, praticam a canoagem. Seu pai é paraguaio e sua mãe, gaúcha. A estudante encontrou na monitora Cristiane uma grande amiga, que a ajudou a tirar dúvidas em inglês – disciplina que tinha grande dificuldade – durante o reforço escolar. “Passo sempre na oca para a gente ir às aulas. Antes, porém, ela faz um penteado bem bonito no meu cabelo”, conta, empolgada.

Em Bonito, os jovens que praticam canoagem, vôlei, futebol e corrida de orientação, ainda aprendem preservação ambiental, reciclagem de lixo, orientação turística e noções de cidadania. Parcerias locais com a Prefeitura Municipal, oferecendo o transporte para as crianças, com a Guarda Florestal, ensinando a preservar a natureza e a combater incêndios, e com o Parque da Lagoa Formosa, que cede a infra-estrutura para a prática da canoagem, fazem com que o Segundo Tempo seja uma ferramenta de solidariedade em prol do desenvolvimento humano de crianças carentes.


Carla Belizária


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